A cultura do cancelamento: em busca da justiça social,causando o linchamento virtual.

Se você é usuário das redes sociais Twitter ou Facebook, certamente já vivenciou ou praticou ações diretamente ligadas à cultura do cancelamento em apenas um toque.


A cultura do cancelamento é um dos temas mais discutidos no mundo, e essa onda foi considerada tema de 2019 pelo Dicionário Macquarie, especialista na seleção anual de expressões mais utilizadas que promovem o comportamento humano nas redes sociais.

Esse fenômeno virtual foi iniciado há alguns anos como um movimento inominado e possuindo objetivos bem diferentes dos atuais. A intenção era atrair atenção para causas provedoras de justiça social, dando voz a movimentos de minorias que necessitam de visibilidade devido às falhas e opressões que ocorrem na sociedade, em específico, na sociedade brasileira.

Seu funcionamento inicial consistiu em denúncias feitas por usuários através de postagens de situações que lhe causem a sensação de incômodo diante à injustiça, com o objetivo de atingir figuras públicas ou até mesmo órgãos públicos, obtendo a visibilidade necessária, a qual faz jus seu julgamento em exposição.

A cultura do cancelamento atinge, algumas vezes, sua pretensão inicial, porém, o movimento que já não é mais inominado, se tornou uma maneira dos usuários exporem seus julgamentos nas redes sociais, de uma maneira um tanto agressiva, com base em suas diferentes ideologias. Os diversos julgamentos do que é certo ou errado não geram a desconstrução, pois não há um diálogo saudável em torno do movimento, talvez seja por como se dá a dinâmica de informações e notícias nas redes sociais, principalmente por não permitir, em grande parte, a oportunidade de resposta do cancelado, acarretando assim, o julgamento em massa e promovendo o linchamento virtual do usuário. O objetivo acaba sendo criticar pessoas, expor reputações, sem o alcance da crítica sobre as ideias.

Recentemente, uma carta aberta foi publicada pela revista Harper's, assinada por diversos intelectuais, em especial a ativista feminista Gloria Steinem, abordando o tema da cultura do cancelamento, criticando a censura que ocorre na troca de informações e ideias, apontando a intolerância diante à exposição dos pontos de vista opostos.

Podemos dividir o comportamento de cancelar as pessoas em duas vias. Uma delas voltada diretamente às figuras públicas, gerando regras comportamentais monitoradas por profissionais que gerenciam os artistas, para que não ocorra o cancelamento e gere perdas econômicas e abalos emocionais. A outra via atinge as pessoas que não possuem o objetivo de exposição, mas que são atingidas da mesma maneira.

O entretenimento da cultura do cancelamento é gerado através de censura, desrespeito e humilhação de pessoas. O cancelamento vem em massa e a pressão sobre o cancelado vira um peso.

Visualizei neste mês, tweets de usuários compartilhando mensagens de apoio à campanha Setembro Amarelo, e os mesmos foram cancelados por comentários negativos, nos quais foram alvos até de xingamentos. Segundo a OMS, o Brasil ocupa a oitava posição entre os países que mais cometem suicídios no mundo. Em meio a uma sociedade sensível, a cultura do cancelamento só reforça a necessidade da campanha de combate ao suicídio, o Setembro Amarelo.

O cancelamento gera gatilhos que despertam sentimentos relacionados à depressão e ansiedade nos usuários, que ao usar as redes sociais ficam em uma busca constante por aprovação. O cancelamento já faz parte da internet e a conscientização individual e coletiva dos efeitos negativos é fundamental.


Caso precise de algum apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é um centro de apoio emocional e prevenção do suicídio, e realiza atendimentos gratuitos e sigilosos todos os dias, 24 horas por dia, pelo número 188. Outra forma de contatar o CVV é por e-mail (que pode ser acessado através do link: https://www.cvv.org.br/e-mail/) ou chat (link: https://www.cvv.org.br/chat/)




Texto por Kauane Siqueira, membra do Coletivo Rita Lobato

Tirinha por Mariana Ortina, Vice-Presidente do Coletivo Rita Lobato


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