Depressão em idosos e a importância da sua detecção na atenção primária

A expectativa de vida, inegavelmente, tem aumentado nos últimos anos, o que percebe-se pela diferença no número de idosos - pessoas com 60 anos ou mais -, que, segundo o IBGE, em 1980 somavam uma população de 7.197.964 e no ano de 2020 representam 20,6 milhões de pessoas. Juntamente com esse aumento surgem preocupações com a qualidade de vida de tal grupo e seus possíveis agravos, entre eles a depressão, a doença mental mais prevalente em pessoas com mais de 59 anos.


De natureza multifatorial, a depressão e sua origem podem ser influenciadas tanto por fatores endógenos ou individuais, como por fatores exógenos ou sociais, portanto sua prevalência e manifestação variam de acordo com a situação vivida pelo idoso, por exemplo, idosos que vivem com a família têm uma menor frequência de casos, diferentemente de idosos que vivem em casas de repouso ou que estão hospitalizados com problemas de saúde que podem ter um aumento de até 50% na prevalência dessa patologia. Existe uma correlação positiva para depressão e doenças que causam dependência como, por exemplo, o Parkinson, incontinência urinária e instabilidade postural. Há, também, a associação entre transtornos do sono, como insônia, sonolência excessiva e pesadelos.


São sinais clínicos de idosos com depressão as queixas relacionadas a problemas de memória, dor física, o sentimento de insignificância, problemas no sono, entre outros. Ainda, como consequências da depressão nos aspectos físicos, temos a perda de vontade de praticar exercícios, de se alimentar saudavelmente, de participar de programas sociais e até mesmo desinteresse por tomar medicamentos para as enfermidades que surgem com a senilidade. Sendo a consequência mais grave o risco de suicídio, extremamente aumentado na terceira idade, visto que os idosos chegam a tentar suicídio até sete vezes mais do que um adulto jovem.


Dessa forma, faz-se necessária a abordagem do paciente idoso em sua integralidade, visando a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), Portaria GM nº 2.528, de 19 de outubro de 2006, do Programa de Saúde da Família a qual objetiva a melhoria da qualidade de vida e saúde dos idosos a ela vinculados, representando um conjunto de ações voltadas para o âmbito individual e coletivo, que possam abranger a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação. Entretanto, mesmo com o reconhecimento da necessidade do acolhimento do idoso, o atendimento adequado ao paciente que apresenta quadro sugestivo para depressão esbarra em alguns problemas, como o baixo interesse pela saúde mental por parte dos profissionais da rede básica, e pelo alto índice de intervenção medicamentosa, tendo em vista que, de acordo com uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria, 76,6% dos idosos afirmam que na última consulta o médico não perguntou sobre sua saúde mental ou fez referência a ela perguntando se estavam tristes ou deprimidos.


Portanto, o reconhecimento dos transtornos depressivos pela atenção primária é baixo, sendo que o desconhecimento de assuntos sobre o envelhecimento contribui para a difícil detecção. Fato que exige um posicionamento ativo, principalmente dentro da atenção básica a qual tem como referência a rede de serviços especializada de média e alta complexidade e busca valorizar o princípio da autonomia do idoso, dando voz às demandas, vontades e necessidades, deixando esclarecido os planos de intervenção. Nesse contexto, o médico deverá fazer uma abordagem de aspectos clínicos, em um atendimento individualizado, e averiguar os casos que demandam prescrição medicamentosa ou encaminhamento para outro profissional. Deve-se abordar com o paciente os aspectos depressivos e o enfrentamento da morte e desastres. Além disso, o atendimento à pessoa idosa deve ser feito respeitando seu tempo, espaço e linguagem, como também a necessidade e importância do trabalho interdisciplinar e intersetorial na assistência à saúde mental. Poderá ser feito um planejamento de Grupo Multidisciplinar para atendimento à população idosa – uma abordagem integral, com escuta qualificada e valorização da dor subjetiva, onde estarão presentes psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e o médico da equipe. E, por fim, agentes comunitários de saúde (ACS) realizam a ligação das famílias ao sistema de saúde, logo é importante que os ACS saibam como acompanhar e orientar idosos com depressão, bem como alertar os familiares e reforçar a necessidade do tratamento.

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