Entrevista com uma pediatra


Que a pediatria é uma especialidade muito visada pelos acadêmicos de medicina, já sabemos… Mas, como é, de fato, a preparação para a prova da residência? E a rotina durante a residência?

A doutora Ana Caroline, formada em medicina pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) - Londrina e, é especializada em pediatria, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), respondeu essas e outras dúvidas.


1. Comente um pouquinho sobre sua postura enquanto aluna durante a graduação. Você gostava de estudar?

“Sempre gostei de estudar e quando entrei no curso de medicina, já tinha passado muito tempo no cursinho - estudando matérias que não gostava, como física. Quando entrei, foi a realização de um sonho. Acho que todos os acadêmicos entendem esse sentimento.

Então, para mim sempre foi muito importante me dedicar intensamente aos estudos e aproveitar tudo que a faculdade poderia me oferecer de conhecimento, para a minha formação: ligas, congressos e palestras, monitoria, trabalhos científicos.

Aproveitar essas atividades extracurriculares é muito importante, principalmente nos primeiros anos da faculdade, pois muitas delas entram para o currículo. Afirmo ser tão importante nos primeiros anos da faculdade, pois é um período em que quase não estudamos a parte clínica em si e com essas atividades conseguimos ter mais contato com esse meio, que é o mais esperado.

Acho que aqui vale a pena lembrar que faculdade é um período muito importante, então não são somente estudos, temos que cuidar, também, da vida social e da saúde mental.”


2. Como escolheu sua área de especialização? Tinha a intenção de se tornar pediatra desde o início da faculdade?

“Essa pergunta é muito boa para mostrar como podemos mudar nossas escolhas ao longo da faculdade. Eu entrei na faculdade querendo cardiologia. Como tive uma cardiopatia congênita e tive que operar, convivi muito com cardiologistas e os admirava muito, portanto acreditava que era aquilo que eu queria. Já a partir do terceiro ano - se não me engano - comecei a querer ser cirurgiã, também porque tinha profunda admiração pela minha irmã, que na época fazia residência de cirurgia cardíaca, tanto que nas férias eu acompanhava as cirurgias cardíacas maravilhada.

Logo em seguida, me encantei pela cirurgia vascular e, inclusive, fui fundadora da liga de vascular e fiquei por anos com esse sonho. Quando passei pela clínica de pediatria eu comecei a me interessar pelo assunto, porém apenas no internato percebi que era essa área que eu deveria me dedicar e não me arrependo da decisão, pois não me vejo fazendo outra coisa! Hoje, na verdade, me pergunto e me divirto em pensar que algum dia pensei em ser cirurgiã. Rs”


3. Conte um pouco sobre sua formação médica, era envolvida em projetos e estágios extracurriculares? Acredita que isso foi, de fato, importante para sua formação e futura carreira profissional?

“A gente entra na faculdade muito animado e, realmente, devemos aproveitar essa energia, para as atividades extracurriculares que, de fato, são muito importantes, principalmente nos primeiros anos da graduação. Muitas dessas atividades entram para o currículo e esse é o período em que temos mais tempo, além de ser uma boa oportunidade de inserirmos tópicos mais clínicos, já que quase não estudamos a parte clínica nos primeiros anos. Com essas atividades conseguimos ter mais contato com o meio clínico que é o mais esperado, pela maioria. Nesse período, portanto, eu participei de monitoria, da formação de ligas, da organização de congressos e palestras, trabalhos científicos e apresentação em congresso.”

4. Sabemos que está prestes a terminar a residência, mas vamos voltar um pouquinho no tempo e falar sobre o seu preparo para a prova de admissão?

“Para a prova de Residência nós temos que ter uma mentalidade quase que de volta ao cursinho. Desde o início do internato, eu já comecei a me preparar porque sabia que queria fazer a residência logo após me formar. Tive a oportunidade de fazer cursinho para a residência e quem tiver essa possibilidade indico fazer, pois foi muito bom, me agregou muito conhecimento para a prática clínica e com certeza me ajudou a passar na prova. Mas é possível a aprovação estudando por conta própria. De qualquer forma, o que é importante é a constância dos estudos, o que não é uma tarefa fácil no internato. Cada um tem um melhor método de estudo, e, sem dúvidas, a realização de provas das instituições que almeja entrar é muito importante.”

5. Dizem que a residência não é um período fácil. Conte um pouquinho da sua rotina e vivência enquanto residente:

“Residência não é um período fácil, mesmo! É o momento em que somos médicos e assumimos responsabilidades como tal, mas, ao mesmo tempo, não temos autonomia para tomar decisões sozinhos e, muitas vezes, principalmente no início, não temos conhecimento e prática suficientes para tais decisões. Enfim, são anos de muito trabalho, de muita tensão, de cansaço físico e mental em que somos responsáveis, auxiliamos e muitas vezes ensinamos internos e residentes na sequência. No entanto, também são anos de intenso aprendizado e a cada dia, a cada plantão é possível perceber a evolução. Portanto, apesar de todos os "perrengues" da vida de residente, com certeza, eu digo que vale a pena realizá-la para especialização.

Quero deixar aqui uma outra dica que acredito que me ajudou muito ao iniciar a residência, foi ter trabalhado antes. Como me formei no meio do ano, pude trabalhar 7 meses em plantões e UBS que me trouxeram habilidades e maturidade que não conseguimos adquirir durante o internato.”

6. Na sua opinião, qual o maior desafio em ser pediatra?

“Olha, o que mais ouço as pessoas dizerem quando digo que sou pediatra é que a pior parte é ter que lidar com os pais rsrs. Mas acredito que o segredo é criar um bom relacionamento, com confiança e empatia com os pais, pois, na realidade, o que eles querem é o mesmo que os pediatras - o bem das crianças.

Na verdade, eu acho que o maior desafio é porque muitas vezes as crianças não conseguem expressar o que estão sentindo e isso acaba dificultando o diagnóstico. Mas é sempre muito recompensador cuidar de crianças pois são “figurinhas” incríveis.”

7. Conte algo de curioso, e quem sabe engraçado, durante o período de residência ou atendimentos nos plantões:

“Honestamente, a pediatria é extremamente curiosa. Crianças são seres puros e nos proporcionam momentos especiais, mesmo quando doentes. Na pediatria, o que me marca muito é que nos tornamos parte da família dos pacientes e nossa preocupação durante as internações é além de cuidar da saúde física, cuidar da saúde mental dessas crianças. Já fiz jogo da memória com desenhos a mão para distrair as crianças, já saímos correndo como se fosse emergência somente para imprimir desenhos para colorir para os pacientes, já fomos atrás da nutrição diversas vezes para pedir a comida que o paciente aceita comer, já fizemos festa de aniversário… Enfim, já ganhei tantos abraços, sorrisos e olhares sinceros que são capazes de levantar o ânimo de qualquer um.”

8. Qual a queixa mais comum que você costuma receber nos plantões?

“A queixa mais comum em pronto socorro, é febre com certeza! Os pais ficam muito desesperados quando as crianças iniciam com esse sintoma.

Outra queixa muito frequente é a de que a criança não come e, por isso, me pedem vitaminas para melhorar a imunidade.

Além disso, uma situação que acontece com frequência na pediatria e muitas vezes nos proporciona momentos, no mínimo, curiosos é a ingestão de corpo estranho: criança diz que estava brincando de cofrinho e engoliu a moeda, já vi ingestão de terço e no Raio-x dava pra ver as contas e o crucifixo e uma outra criança que engoliu um bonequinho do Pokémon que por meio do raio-x conseguimos descobrir que era o Charmander. Rs!”


9. Acredita que para ser pediatra a pessoa precisa ter um perfil em especial?

Precisa saber falar tudo no diminutivo. Rs! Brincadeiras à parte, acredito que para cada profissão deveria sim ter um perfil especial, pois o trabalho é pesado e cansativo e fazer algo que não se encaixa no seu perfil é a chave para ser um profissional frustrado. Para ser pediatra, na minha opinião, tem que ter paciência com as crianças (sim, elas choram - e muito - se debatem e não colaboram), ter empatia com os pais - eles questionam, são muito preocupados, mas estão cuidando da maior preciosidade da vida deles.”


10. Algum conselho para quem pensa em se tornar pediatra?

“Meu conselho para quem quer fazer pediatria é: “apenas faça”. Muitas pessoas vão desencorajar, dizendo que: "lidar com criança é difícil". Mas eu digo que é muito recompensador. Tenham muita paciência com o processo, é difícil examinar, mas ao longo do tempo a gente pega o jeito.

Para lidar com os pais, demonstre o amor, seja honesto e não menospreze nenhuma queixa por mais simples que pareça.”


Redatora: Gabriella Fornazieri

Revisora: Sâmia Seleme



Dra. Ana Caroline Lima

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CRMPR 40 273

RQE 30252


Atendimento na clínica Les Grands Petits

📍R. Moreira Cabral, 400 - Londrina PR

☎️ 43 3028-2432


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