Entrevistando uma cirurgiã cardíaca.

Atualizado: 12 de nov. de 2021

A seguir, em uma conversa informal, a Dra. Jaqueline nos contou um pouco da sua rotina como cirurgiã e mais!



1ª foto, da esquerda para a direita, Dra. Ana Caroline (irmã e médica pedriatra) e Dra. Jaqueline.

2ª foto, a Dra. Jaque e sua família.

3ª foto, Dra. Jaqueline e sua irmã Ana Caroline.


Que a vida de um cirurgião é romantizada pelos aspirantes à carreira não é novidade, mas afinal, como é a realidade dentro do centro cirúrgico? A seguir, por meio de uma entrevista informal, conheceremos um pouco mais do cotidiano de uma cirurgiã cardíaca. A Dra. Jaqueline Maria é formada pela Universidade Estadual de Londrina, é cirurgiã cardíaca e pós-graduada em Urgência e Emergência e Medicina Intensiva. Além disso, atuou como médica militar na Marinha do Brasil no Comando do 9º Distrito Naval, onde conquistou a patente de Primeiro-Tenente da Reserva de 2° Classe da Marinha. Atualmente, a Dra. Jaqueline atua em Arapongas-Pr, no Hospital Regional do Norte do Paraná, além de ser mestranda em Bioética. Ela é mãe, esposa, e apaixonada pelo que faz!


Se você pensa em ter uma carreira médica parecida ou tem curiosidades sobre a rotina nos centros cirúrgicos, confira nosso bate papo abaixo.


@jaquemarialima

Oiê, Dra. é um prazer poder conhecer melhor seu lado profissional, com certeza aprenderemos muito com o que você tem a dizer.


1. Comente um pouquinho sobre sua postura enquanto aluna, durante a graduação. Você gostava de estudar?

R: Oiê, entâo... Sempre fui bastante estudiosa e curiosa, gosto muito de ler... Por isso, julgo que sempre fui fã de estudar. Minha formação, na UEL, foi PBL, metodologia de ensino que nos põe em uma posição mais ativa, então sempre tive agenda livre para estudar por conta, com isso, eu usava muito desse tempo pra estar no hospital. Se quisesse me achar, era só procurar no pronto socorro no HU, rs. Eu ficava sempre atrás de algum procedimento, pra por a “mão na massa mesmo”, pedia pra fazer sondagem, punção venosa, coletando exame... Sempre tive postura ativa o máximo possível. Segundo ela, apesar de sempre gostar muito de estudar, se encontrou mais no aprendizado prático, colocando a mão na massa verdadeiramente.

2. Como escolheu sua área de especialização? Já tinha a intenção de ser tornar cirurgiã desde a época da facul?

R: Na realidade, minha relação com a cirurgia cardíaca é de longa data. Minha irmã caçula nasceu com uma cardiopatia congênita – comunicação interatrial, o famoso sopro. Desde o nascimento, a possibilidade de uma cirurgia cardíaca sempre fes parte das preocupações da minha família, sendo que, minha irmã, aos 9 anos, de fato, precisou da cirurgia. Nesse sentido, a vivência daquela situação e a forma como a equipe de cirurgia cardíaca acolheu minha família e a minha irmã, naquele momento, me “encheu os olhos”. Na época, passei a admirar muito a doutora, que também, estava no início da carreira - Dra. Cristiane. O carinho que essa doutora teve com a minha família foi tão marcante que senti vontade de poder retribuir pra alguém no futuro. Nesse sentido, a Dra. Jaqueline teve a oportunidade de fazer residência com a mesma equipe, que no passado cuidou de sua irmã, e atualmente é sócia deles... Pra ela, viver isso é a realização de um sonho, além de poder retribuir o carinho aos seus pacientes trabalhando ao lado da mesma equipe. Por isso, segundo ela, a escolha da especialização é anterior até mesmo à própria medicina.


3. Sobre sua fase militar, por que você quis ir pra Marinha e como foi o processo? Você aconselha essa experiência a outras pessoas?

R: Sempre gostei de desafios e durante a faculdade fiz o projeto Rondon, um projeto do ministério da defesa em parceria com o Ministério da Educação que levava estudantes da saúde das diversas áreas do país aos lugares mais necessitados de atendimento. Viver esse projeto foi fantástico e me influenciou a buscar algo parecido após formada. Um certo dia, assistindo ao globo repórter com minha família, tive contato com o trabalho hospitalar e pré- hospitalar que o navio Montenegro presta aos ribeirinhos do Amazonas e Acre. Assim, próximoa minha formatura, me alistei via São Paulo, já que naquele ano não seriam enviados médicos voluntários do estado do Paraná, e fui pra mais essa “loucura” rs. A Dra. Jaque se diz saudosa da aventura e de tudo que viveu naquele ano, ela amou e indica essa experiência ímpar.

4. Como foi/é pra você ingressar em uma carreira que ainda é, majoritariamente, masculina?

R: Não foi fácil no começo, muitas vezes não acreditei na minha própria capacidade. Com o tempo percebi que não preciso ser igual aos homens cirurgiões. Para mim, os gêneros se complementam no cuidado com o paciente e acredito que a minha equipe é completa nesse quesito. Com isso, para ela, o estigma social existe sim, mas, hoje, entende que suas qualidades e características enquanto profissional não são inferiores às dos homens.

5. Durante a sua carreira, como médica e, depois, cirurgiã, o que mais te marcou e que você leva pra vida de aprendizado?

R: Ter empatia, me colocar no lugar do outro. Sabe, a gente aprende durante a faculdade, principalmente na minha época -de 10 a 11 anos atrás- a visão paternalista do médico, em que ele é considerado O detentor de todo e qualquer conhecimento, e aí você lida com uma realidade totalmente diferente, que nos leva a mudar essa visão. Posso dar um exemplo: tínhamos um paciente de aproximadamente 70 anos, sem escore de fragilidade alto. Esse paciente era solteiro e sem parentes próximos, dependia da boa vontade de vizinhos e, com isso, mesmo tendo indicação clássica de cirurgia cardíaca, não teria como ele se cuidar da forma como deveria no pós-operatório. A partir disso, se fosse “bater o pé” na indicação da operação, ele não teria uma boa recuperação pós cirurgia. Assim, foi preciso repensar na conduta a ser feita com esse paciente, pensando não só no problema cardíaco. Diante dessa realidade, tenho tentado, como médica e cirurgiã, ter mais empatia e pensar no paciente de forma global, não só com os olhos da minha especialidade.

6. Na sua opinião, qual o maior desafio em seguir a carreira da cirurgia cardíaca?

R: Como uma cirurgiã cardíaca, vejo que a tecnologia tem facilitado e melhorado as condições do paciente, mas no Brasil e, principalmente, no SUS, há uma dificuldade imensa em proporcionar as novas técnicas na mesma velocidade que os países a fora conseguem. Sendo assim, alguns procedimentos feitos no exterior, que facilitam a vida dos pacientes diminuindo os possíveis riscos, ainda não são realidade no SUS. Estamos defasados em torno de 15 anos em relação ao que já existe. Então, resumindo, um dos maiores desafios seria acompanhar a tecnologia e poder oferecer o melhor ao paciente do SUS.

7. Conta como é a dinâmica de uma equipe cirúrgica e quanto tempo dura uma cirurgia em média?

R: De modo geral, a cirurgia mais comum é a revascularização do miocárdio, a famosa ponte de safena. Nós entramos em 2 cirurgiões, um principal e o 1º auxiliar. Resumidamente, cerramos o osso, acessamos o coração, enquanto outro médico disseca a safena pra preparar os enxertos. Enquanto isso, o cirurgião principal vai dissecando a mamária para o enxerto. Uma cirurgia de 4 pontes vai girar em torno de 4 a 5 horas e as trocas de válvulas em torno de 3 a 4 horas. Assim, o cirurgião principal segue nos tempos principais e os auxiliares vão colaborando, afastando e posicionando os campos de forma a proporcionar a melhor qualidade do enxerto.

8. O que você mais gosta e o que menos gosta dentro do centro cirúrgico?

R: Ahh, centro cirúrgico é o meu xodózinho, se pudesse eu ficaria o dia inteiro. Eu adoro o clima e amo o ambiente, coloco uma música e ali vivo meu mundinho. Tenho visto que ficar em pé muitas horas está ficando cada vez mais difícil com a idade, rs, as pernas vão ficando cada vez mais cansadas, as varizes vão aparecendo... Usar meias de compressão é lenda, rs. Mesmo assim, me sinto muito bem, principalmente pela sintonia da equipe que é ótima. Até nos momentos mais difíceis sentimos essa harmonia de forma natural, sou fã.

9. Conte-nos algo de curioso, e quem sabe engraçada, dentro do centro cirúrgico que ninguém sabe:

R: Será que posso contar algumas coisas? Rs Olha, não sei bem se é engraçado, mas que aconteceu, aconteceu. Na época da residência, era comum, quando algum paciente do hospital vinha a óbito -e a família permitia- eu tirar o coração para doeção de válvulas. Assim, como era apenas uma retirada, não havia problemas em fazer sozinha. Numa certa vez, já era noite e estava chovendo muito, eu estava em uma sala em que o gerador demorava bastante pra entrar e, pra ajudar, a enfermeira não estava no centro cirúrgico comigo, no momento. Quando caiu a energia eu fiquei sozinha com o paciente no escuro!!! Na hora, fiquei super assustada, soltei a pinça e comecei a gritar pela enfermeira para que ela viesse ficar comigo. Quando ela me escutou, pediu para que eu contasse até 20 -seria o tempo de espera para o gerador ligar... Comecei a contar e a rezar, e se o corpo se mexesse? Rs No fim deu tudo certo, o gerador entrou.


10. Algum conselho para quem quer trilhar o caminho da cirurgia?

R: O principal conselho que dou é ter paciência. No começo, ao observarmos nossos chefes, ficamos maravilhados com a desenvoltura e, até mesmo, facilidade deles em passar os pontos... enquanto que você ainda não tem a mesma agilidade. E tá tudo bem, sabe? É preciso ter paciência, porque com a prática a desenvoltura vem. O exercício te leva a entender melhor os tempos cirúrgicos, o que é necessário no momento... Chega a ser até arrogância logo no começo querer ser igual ao chefe que está ali há 20 anos na função. Acredito que a maneira correta de se comparar é quando comparamos a nossa evolução. Por exemplo, como eu era? como estou agora? Paciência e treino são meus conselhos.

11. Como você concilia sua vida profissional com a maternidade?

R: Realmente conciliar a maternidade com o profissional é muito difícil, as folgas são raras, acontecem cirurgias e reoperações de madrugada... Eu ainda estou aprendendo a conciliar e a lidar com essa nova fase da minha vida. Confesso que não está fácil, mas acho que é possível, sabe? Tudo que fazemos com amor é possível, sabe aquela velha frase clichê? “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”... Eu me preparei bastante para esse momento, me sinto feliz sendo cirurgiã e me sinto muito realizada sendo mãe. Estou tentando me dedicar ao máximo nas duas ocupações, no momento em que estou no hospital, eu estou lá verdadeiramente e quando estou em casa, com a Mabel, eu me dedico o máximo possível também, sejam 15 ou 20 minutos, mas estou de corpo e alma na brincadeira com ela. Ainda não sei se essa é a melhor forma, mas é a que eu encontrei nesse momento. Posso dizer que é muito bom ser mãe, é um barato e uma aventura, mas saiba que fácil não é. Rs.

12. Acredita que para seguir a carreira da cirurgia a pessoa precisa ter um perfil em especial?

R: Acredito que as pessoas mais pragmáticas e resolutivas tendem a lidar melhor com a especialidade e que se a pessoa tem a tendência de raciocínio mais longo e complexo, talvez terá mais dificuldade. Contudo um perfil em especial não sei bem... Acredito que qualquer um pode ser, esforço e perseverança te fazem um bom cirurgião (entre otras cositas más rs.).



Gabriella de O. Fornazieri - T6

Fredericka W. Strickert - T4


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