Epigenética: Qual o significado de tal palavra, e sua relação com alimentação?

Diversos fatores externos podem ter influência em nosso organismo de maneira geral, e até mesmo no próprio gene, que são sequências de DNA contidas no núcleo celular, que apresentam instruções necessárias para a síntese de uma proteína ou molécula de DNA, e que regem toda a via do ser humano!

Já o termo epigenética se relaciona diretamente a tais temáticas, se referindo ao estudo de alterações na expressão dos genes que podem ser herdados tanto por mitose ou meiose, e que não envolvem mudanças na sequência de nucleotídeos do DNA, mas são transformações promovidas por marcadores genéticos que se posicionam nas "adjacências" do DNA, sendo reversíveis. Tais marcadores genéticos se localizam em diferentes partes dos filamentos do DNA ou proteínas que ficam ao seu redor, com o objetivo de “ativar” ou "desativar" genes, sendo responsável por regular as informações.



Mas, afinal, qual a relação de tal termo com alimentação? Convido você a fazer uma breve reflexão a respeito dos artigos que citarei em seguida, para que tentemos entender tamanha influência que a alimentação contém em nossa vida:

As pesquisas que relacionam a alimentação e sua influência nos genes deixam claro que hábitos de vida podem determinar alterações significativas no material genético. Um artigo científico publicado em 2001 por Stephen R. Spindler, traz uma pesquisa realizada com dois grupos de camundongos, em que o primeiro grupo recebeu uma dieta chamada de “ad libitum”, ou seja, poderiam comer o que quisessem, e o segundo grupo recebeu apenas 50% da mesma dieta. O resultado foi que os camundongos do primeiro grupo se tornaram rapidamente obesos, com marcadores bioquímicos semelhantes aos de seres humanos obesos, já os do segundo grupo com a dieta controlada permaneceram mais ágeis, delgados e saudáveis, tendo o dobro de expectativa de vida. Ao analisar o genoma dos grupos, foi exposto que genes de longevidade estavam suprimidos nos camundongos induzidos a terem uma alimentação mais densa, e os mesmos genes estavam ativados em camundongos com restrição alimentar.

Um outro estudo que nos faz refletir é o publicado em 2003 pelos pesquisadores Randy L. Jirtle e Robert A. Waterland, e tem extrema relevância. Foram utilizados camundongos com gene agouti, que são uma espécie laboratorial que expressam genes de natureza glutina, significando que são mais ávidos por ração e apresentam, consequentemente, suscetibilidade para doenças como câncer e diabetes. Durante o estudo, foi oferecido a fêmeas portadoras do gene agouti uma ração com maior conteúdo de vitaminas B12 (cianocobalamina) e B9 (ácido fólico) tanto antes quanto durante a gestação. O resultado apresentado foi que, com uma mínima mudança nos hábitos alimentares, alterações drásticas ocorreram na prole subsequente, sendo que tais suplementos dados a mães obesas foram capazes de gerar filhotes esbeltos e sem doenças, e o autor do trabalho acaba citando uma frase de Hipócrates, que se mostra muito coerente ao olharmos tais estudos: “alimentos são medicamentos”.

A metilação também é um processo envolvido na epigenética, que tem o poder de “desligar” um gene, e consiste na acetilação de moléculas do grupo metila com a citocina, uma das quatro purinas que formam a sequência do DNA, impedindo a leitura do filamento, decorrente de sua supressão ou inativação. Uma relação com hábitos alimentares é que as vitaminas do complexo B são capazes de remover radicais metila da cadeia do DNA, demonstrando que uma reposição vitamínica pode pôr em funcionamento novamente um gene inativo.

Outra situação de interesse a ser citada é quando observamos o desenvolvimento de gêmeos durante a vida, como em um estudo realizado por Manel Esteller com gêmeos univitelinos, que apresentam códigos genéticos idênticos. Na pesquisa realizada, é notório a percepção de que, dependendo dos hábitos de vida que cada um dos gêmeos levar, podem se tornar pessoas com características completamente diferentes, a ponto de não serem reconhecidas com irmãs, assim como doenças adquiridas ou prevenidas que tem relação com a supressão ou ativação de determinados genes podem diferenciar em cada um dos irmãos, decorrentes também de seus hábitos.

Em resumo, os mecanismos epigenéticos sofrem influência dos seguintes fatores: desenvolvimento tanto no útero quanto na infância; químicos do meio ambiente; drogas; idade e dieta e, apesar de marcadores biológicos intrínsecos a cada ser humano serem um predisponente do indivíduo a desenvolver certas doenças durante a vida adulta, podemos desativar ou ativar esses genes com base em nossos hábitos alimentares e de vida, eliminando genes nocivos à saúde. Com isso, podemos concluir que a epigenética é uma situação em que todos nós estamos expostos e haverá possibilidades de sofrermos influência por ela, porém se assumirmos responsabilidade sobre nossos hábitos de vida, é possível que interrompemos uma sequência de erros cometidos pelos nossos ancestrais, ou até mesmo que determinemos o surgimento de doenças até então inexistentes em nossas famílias.



Referências: Livro “Cirurgia verde” - Dr. Alberto Peribanez Gonzalez.



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