O impacto do estresse e da ausência de hobbies na saúde cardíaca

As doenças cardíacas costumam afetar a qualidade de vida e o bem-estar dos indivíduos. A ciência vem demonstrando que a relação entre a mente e o coração, vai muito além do que imaginamos, e cada vez mais percebemos que as emoções e a qualidade das relações têm papel importante no adoecer cardíaco. Sabemos que em situações de estresse mental ou emocional, o organismo humano se adapta, redistribuindo suas fontes de energia frente a uma agressão iminente. Este mecanismo é vantajoso se realmente houver perigo. Entretanto, ao persistir por mais tempo, como nos estados de estresse mental agudos e crônicos, pode causar danos visto que os sentimentos são capazes de promover grandes modificações orgânicas a partir da liberação de substâncias endógenas. A influência direta está na sua manifestação psicossomática identificada pela alteração excitatória psiconeurofisiológica. Por outro lado, ao motivar hábitos saudáveis, como atividades de lazer, alimentação equilibrada, sono e repouso adequados, emoções positivas como a paixão e a alegria, através da liberação de serotonina, endorfina e dopamina, possuem efeitos cardioprotetores.

Estresse x Coração:

- O estresse emocional e a morbimortalidade em doenças ateroscleróticas

coronarianas estão relacionadas a partir dos efeitos crônicos e agudos do estresse. Situações estressantes provocam um aumento na produção de glóbulos brancos, que em excesso podem se acumular na parede das artérias, reduzindo o fluxo sanguíneo e assim, favorecendo a formação de coágulos. A presença de isquemia induzida pelo estresse mental está associada com aumento da frequência de eventos cardíacos fatais ou não-fatais, a atividade mental parece ser tão potente quanto a atividade física em determinar isquemia miocárdica transitória, tendo ampla correlação com o ritmo circadiano. Ademais, em crises de estresse, os sintomas podem ser os mesmos de um infarto, como falta de ar, coração acelerado, transpiração excessiva. Nestes casos, o paciente deve ser encaminhado imediatamente para avaliação, especialmente se tiver fatores de risco.

- Que o sistema cardiovascular está diretamente ligado às influências neuro-humorais

e participa ativamente das adaptações ao estresse já sabemos, as respostas cardiovasculares resultam principalmente em um aumento da frequência cardíaca, da contratilidade, débito cardíaco e pressão arterial. Estudos recentes demonstram que o estresse mental também pode afetar processos que são relevantes para a hemostase e trombogênese, visto que há uma redução da atividade do ativador do plasminogênio tecidual (tPA), aumento do tempo de lise do coágulo e do inibidor do plasminogênio tecidual demonstrado pelo aumento nos níveis séricos de serotonina em testes feitos com ratos. O estresse mental pode, portanto, levar a um aumento da ativação plaquetária, aumento da viscosidade sanguínea e reduções agudas do volume circulante plasmático.

- O estresse mental participa da doença isquêmica do miocárdio como fator de risco

para doença arterial coronariana e como desencadeador de eventos isquêmicos agudos em pacientes com aterosclerose coronariana instituída. O aumento do tônus vasomotor coronariano com diminuição do fluxo e a hiperatividade simpática que determina um aumento na frequência cardíaca destacam-se como os possíveis mecanismos responsáveis. A hipoatividade vagal, diminui o limiar de fibrilação ventricular, eleva a frequência cardíaca e reduz a modulação adrenérgica pré sináptica. Evidencia-se a provável participação da redução primária do fluxo coronariano, associada a um aumento da demanda metabólica, na indução de isquemia por estresse mental, favorecendo a instabilidade elétrica miocárdica, levando ao desenvolvimento de arritmias ventriculares letais.

- O estresse mental também afeta a função miocárdica. Em pacientes que

apresentam disfunção do ventrículo esquerdo, há o aumento da frequência cardíaca, débito cardíaco, pressão arterial e resistência vascular periférica, se comparados com aqueles que não desenvolveram disfunção de ventrículo esquerdo durante o estresse. A isquemia desenvolvida durante estresse mental relaciona-se com um aumento da resistência vascular periférica, disfunção diastólica, aumento do volume de ventrículo esquerdo e redução da fração de ejeção do mesmo no início do estresse, havendo um rebote após seu término. Observam-se alterações no ecocardiograma, como a cintilografia miocárdica e diminuição da fração de ejeção durante o estresse mental, trazendo um alerta para o aumento do risco de desenvolvimento de eventos cardíacos e, uma maior associação com episódios de isquemia silenciosa.

Atividade física/hobbies x Coração:

- Sendo uma das maiores problemáticas em saúde pública, a inatividade física está

relacionada à mortalidade em doenças cardiovasculares no Brasil e no mundo. A prática de atividades relacionam-se com o ganho de saúde, melhora na qualidade de vida e aumento da expectativa de vida, sendo portanto, uma excelente estratégia tanto individual, quanto preventiva para a população em geral. É imprescindível priorizar o combate ao sedentarismo e o estímulo à adoção de um estilo de vida mais ativo serem abordados rotineiramente. Percebe-se a existência de uma constante diminuição nos riscos em doenças cardiovasculares conforme os diversos graus de aptidão física. Conforme as Diretrizes, uma boa meta semanal para a promoção e prevenção em saúde de doenças cardiovasculares, é a prática de atividade física/esporte por, pelo menos, 150 minutos semanais em intensidade moderada ou 75 minutos de alta intensidade. Vale lembrar, que é necessária avaliação da aptidão física, com o objetivo de obter os melhores resultados, estratificar possíveis riscos e buscar de anormalidades ocultas.

- Relaxamento e meditação são práticas bem estabelecidas na abordagem do

binômio mente/corpo e seus benefícios vêm sendo comprovados em várias populações, incluindo cardiopatas, além de serem práticas de baixo custo e fácil acesso. Em recente estudo, foi analisada estratégia de reabilitação cardíaca utilizando técnicas de auto relaxamento, bem-estar espiritual e controle de estresse psicológico, havendo aumentos significativos no tempo de prática de relaxamento e nos escores de bem estar espiritual, além de melhora nos índices de depressão, ansiedade, hostilidade e gravidade global.

Para finalizar...

É importante destacar que a prevalência de doenças cardíacas em sua grande maioria manifesta-se através de um longo histórico de uma vida sedentária, alimentação inadequada e estresse prolongado. Corroborando-se assim, a importância da qualidade de vida positiva do ponto de vista cardíaco, pautada na prática de um estilo de vida saudável, realização de atividades físicas, hábitos alimentares limpos, atividades de lazer/hobbies relaxantes, evitando ambientes e situações estressoras, visando a diminuição do cortisol e seus desdobramentos.

Referências:

Arq. Bras. Cardiol. vol.78 no.5 São Paulo May 2002

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.3 São Paulo Mar. 2010

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.20 no.45 Ribeirão Preto Jan./Apr. 2010

Rev. SBPH vol.13 no.1 Rio de Janeiro jun. 2010

Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019

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