Remissão de Linfoma Hodgkin após infecção pelo novo Coronavírus. Como explicar?



Em meio a tantas desagradáveis notícias envolvendo a covid-19 e inúmeras tragédias advindas de tal doença tanto no âmbito familiar, como no psicológico, econômico, entre outras diversas condições que poderiam ser citadas, uma situação notória nos chama a atenção, sobre o caso de um paciente que se beneficiou (e muito) após contrair o coronavírus. Mas, como isso é sequer possível?

Para entendermos melhor o caso, precisamos esclarecer o que seria a patologia que o paciente apresentava anterior a sua contaminação por covid-19.


Linfoma de Hodgkin

É definida como uma neoplasia do tecido linfóide, caracterizada pela presença de células de Reed-sternberg (derivadas de células B do centro germinativo e pós centro-germinativo) e/ou células de Hodgkin, com inflamações características com a presença de estroma, linfócitos, histiócitos, eosinófilos e monócitos. Sua origem é em um linfonodo único ou cadeias de linfonodos, que se disseminam por contiguidade, comumente acometendo o mediastino, em contraste com o acometimento extranodal, que é raro.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), estima-se que mais de 2,6 mil pessoas tenham tido a doença no Brasil em 2020.


É classificado em dois grupos:

  1. Linfoma de Hodgkin clássico, apresentando os subtipos esclerose nodular; celularidade mista (fortemente relacionado com a infecção por Epstein-Barr vírus); rico em linfócitos e depleção linfocitária;

  2. Linfoma de Hodgkin com predominância linfocitária, sendo um tipo raro da doença.


Os aspectos clínicos característicos são:

  • linfadenopatia indolor, sendo que, quando a doença se encontra nos estágios 3 e 4, apresenta maiores chances de conter febre, suores noturnos e perda de peso;

  • Adenomegalia cervical, supraclavicular, mediastinal e paraaórtico;

  • Febre alternada (Pel-Ebstein) - Trata-se de uma febre alta, persistente durante uma a duas semanas, alternando com períodos de apirexia (ausência de febre) de mesma duração;

  • Dor após ingestão alcoólica.


Relação da covid-19 com o Linfoma Hodgkin

O relato de caso publicado no British Journal Of Haematology explica que um paciente de 61 anos de idade foi encaminhado para o departamento de hematologia de um hospital britânico para que pudesse ser investigado um quadro de perda de peso e linfadenopatia. Ele já apresentava doença renal crônica terminal secundária a nefropatia por IgA e fazia hemodiálise, além de ter histórico de um transplante renal mal sucedido.

Após realizar uma biópsia gânglio supraclavicular, foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin positivo para o vírus Epstein-Barr (EBV), e, ao realizar tomografia computadorizada, constatou-se que o linfoma já estava no estágio 3 (continha disseminação supra e infra diafragmática e envolvimento do baço). Pouco tempo depois, o paciente foi hospitalizado por apresentar dispneia e broncoespasmo, sendo confirmado a suspeita de COVID-19 pelo método PCR. Com 11 dias de internação recebeu alta, sem receber corticosteróide ou imunoquimioterapia nesse período.

Quatro meses depois do ocorrido, os gânglios palpáveis tiveram uma diminuição considerável, e um PET/CT (tomografia por Emissão de Pósitrons) revelou que a linfadenopatia generalizada estava bem atenuada. Também houve uma queda considerável no número de cópias de EBV por PCR, de 4.800/ml para 413/ml.




Segundo os autores, a infecção por covid-19 gerou uma resposta imune anti-tumoral, que já teria sido documentada em outras infecções em casos avançados de linfoma não-Hodgkin. O mecanismos de ação seriam, possivelmente, uma reatividade cruzada de células T patógenos-específicos com antígenos tumorais, ou ativação de células NK (natural killer) por citocinas inflamatórias produzidas em resposta à infecção, levando a uma cura do linfoma.

O espanhol Ignácio López-Goñi, professor catedrático de microbiologia da Universidade de Navarra, menciona em um artigo publicado no The Conversation, um médico norte-americano, William B. Coley (considerado pai da imunoterapia), que após realizar experimentos para desenvolver bactérias para o tratamento de pessoas com câncer no século XIX, percebeu que os que sofriam de infecções respondiam melhor em comparação com os não infectados, levando a teorias que infecções estimulavam o sistema imune contra o câncer. Esse tipo de tratamento foi abandonado após o surgimento de quimioterapias e radioterapias, apesar de seu princípio ser válido, sendo considerado a base da imunoterapia.

Outro caso que merece nossa atenção é a imunoterapia realizada no tratamento para o câncer de bexiga, em que a vacina BCG, que é uma micobactéria atenuada desenvolvida para combater a tuberculose, é aplicada por via intravesical, podendo, em fases iniciais do tumor, destruir as células cancerosas. Sendo assim, o caso de remissão do linfoma de Hodgkin após um quadro de COVID-19 pode ser visto como um exemplo em que o imunoterápico foi o Sars-Cov-2.

Nelson Hamerschlack, coordenador do Programa de Hematologia e transplantes de Medula Óssea do Hospital Israelita Albert Einstein explica que o caso é raríssimo, esclarecendo que o artigo não afirma em nenhuma circunstância que o coronavírus é firmemente capaz de “curar” o linfoma, sendo necessário um aprofundamento nos estudos envolvendo o caso, além de alertar que ninguém, por ter linfoma Hodgkin, deve se expor ao covid-19 pela situação relatada no artigo.


REFERÊNCIAS:


https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bjh.17116


https://www.unasus.gov.br/especial/covid19/markdown/365


https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/01/27/em-caso-rarissimo-paciente-com-linfoma-de-hodgkin-tem-remissao-da-doenca-apos-pegar-covid-entenda.ghtml


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