Tratamento precoce

Em março de 2021, onde completamos mais de um ano do primeiro caso confirmado de coronavírus no Brasil, nos vemos novamente em uma situação pandêmica em que mais parece um “looping” no tempo, para o início da deprimente situação com a sars-cov-2. Já no início deste mês, o país registrou uma média móvel de 1.500 mortes por dia, sendo o maior índice desde o início da pandemia.

Devido a esse alarmante cenário em que nos encontramos ao qual, em muitos momentos, nos vemos comovidos ou até mesmo amedrontados por tão temerosa doença que gerou dificuldades em incontáveis áreas na vida de cada indivíduo que vive essa fase (tristemente) histórica, chegamos a um questionamento: afinal, os tão comentados “tratamentos precoces” seriam ou não uma maneira de reverter a dura realidade da covid-19? Quais são os de maior renome mundial? Te convido a compreender um pouco mais sobre essa realidade a seguir.

O tratamento precoce, ou “kit-covid” como é conhecido, foi ofertado por diversas secretarias de saúde do Brasil, ao qual está incluso, principalmente: hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) no mês de dezembro de 2020 sobre tais tratamentos nos primeiros dias de sintomas não é recomendável, devido aos estudos clínicos randomizados não terem mostrado qualquer benefício, e além disso, podem causar até efeitos colaterais, causando a piora do estado clínico do paciente.

Primeiramente, a compreensão dos métodos de estudos realizados para cada medicamento é extremamente relevante, sendo que, no caso dos estudos epidemiológicos, os níveis de evidência estão hierarquizados de acordo com seu grau de confiança, relacionado diretamente à qualidade metodológica dos mesmos. No topo da lista, se encontram as revisões sistemáticas, seguidas de ensaios clínicos controlados randomizados (sendo esses ideais para avaliação de intervenção terapêutica), estudo de coorte, estudos de caso-controle, séries de casos, relato de casos, e por fim, opinião de especialistas/ estudo in vitro ou com animais. Compreendendo tal explicação, se faz necessário o entendimento do porquê tais diretrizes, como da SBI, seguem o posicionamento de não aprovar o uso das medicações citadas.



HIDROXICLOROQUINA:

É um fármaco utilizado com o objetivo de prevenção e tratamento da malária causado pelos parasitas Plasmodium vivax, P.ovale e P.malarie, amebíase hepática, artrite reumatoide, lúpus, entre outras doenças. A hidroxicloroquina foi visto como uma opção por ter sido sugerido que poderia haver uma inibição da replicação de sars-cov-2 pela glicosilação terminal da enzima conversora de angiotensina-2, também produzida pelos vasos pulmonares, inibindo a ligação vírus-receptor, como também pela elevação do ph endossômico, interferindo na fusão viral/celular. Um dos primeiros estudos que apresentaram essa proposta terapêutica para a covid-19 foi o “Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial”. Foi mostrado que a associação entre hidroxicloroquina e azitromicina levava a uma diminuição da carga viral, porém, o estudo apresenta um grupo muito restrito de pacientes, com um total de 36, avaliados em 3 braços de tratamento, sendo uma amostragem pequena e sem grupo controle para comprovar qualquer resultado definitivo.

Umas das análises que podemos citar é o resultado de uma revisão sistemática publicada pelo Sírio Libanês, ao qual buscou avaliar as evidências científicas de mais destaque disponíveis sobre a eficácia e a segurança da hidroxicloroquina, salientando que:

  • não foi identificado benefício da hidroxicloroquina em relação à negativação da carga viral, ou no que diz respeito à ventilação mecânica;

  • foi constatado maior risco de qualquer evento adverso, do que dos efeitos positivos da mesma;

  • Não foi observado qualquer benefício da cloroquina sobre a redução da mortalidade.

Um importante estudo publicado pelo Reino Unido conhecido como Recovery Trial, que é um grande ensaio clínico randomizado controlado de possíveis tratamentos para doentes hospitalizados com COVID-19, trouxe uma análise em mais de 4.500 pacientes hospitalizados ao usarem hidroxicloroquina, que também não obtiveram benefício ao analisar o resultado dos estudos. Não podemos deixar de citar a pesquisa da Coalizão Covid-19 Brasil, ao qual participaram 500 voluntários com o coronavírus em estágios leves ou moderados, não demonstrando efeitos algum ao usar o fármaco.

Sobre os efeitos adversos, um dos mais significativos foi associado ao aumento no intervalo QT, levando a um maior risco para arritmia detectada por eletrocardiograma, e o aumento de enzimas TGO/TGP no sangue, que são alterações indicativas de lesão no fígado.

A Organização Mundial da Saúde, após analisar os estudos de mais renome científico, definiu que há uma ineficácia no uso da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19, sendo que seus efeitos adversos se ressaltam aos efeitos positivos, encerrando seus estudos sobre a medicação.


AZITROMICINA:

É um medicamento da subclasse dos macrolídeos, possuindo predominantemente atividade bacteriostática de amplo espectro, sendo utilizado principalmente no tratamento de infecções bacterianas, respiratórias, entéricas e geniturinárias.

Um estudo feito para compreender a ação farmacológica antiviral da Azitromicina (AZT) visando a covid-19 teve como resultado que, in vitro, a AZT apresentou atividade antiviral, com cerca de 50% da concentração antibiótica usual, o que não apresenta margens seguras. Já o Coalizão 2, que é o estudo brasileiro pioneiro na avaliação randomizada do efeito da adição da azitromicina à terapia de pacientes graves, analisou os resultados do estudo feito com 447 participantes adultos, e observaram que não houve nenhuma diferença importante no tempo de internação e mortalidade, como também nas chances de melhora.

Sendo assim, o desfecho do ensaio foi que a azitromicina pode não trazer benefícios aos pacientes, uma vez que a doença tenha progredido, e os mesmos precisem de internação.


IVERMECTINA:

É um vermífugo usado para tratar infecções causadas por vermes e parasitas humanos e animais. Os estudos que se apoiam na especulação do quanto o uso da ivermectina no combate ao COVID-19 é um estudo in vitro, em que foi utilizado cultura de células infectadas pelo vírus, concluindo-se que altas concentrações de Ivermectina seriam capazes de combater à multiplicação do vírus.

Porém, é necessário ressaltar que as doses necessárias para a obtenção de uma concentração semelhante à do estudo são superiores às doses máximas seguras para tratamento em humanos. Com isso, os estudos in vitro não podem ser diretamente relacionados com o uso em seres humanos, pois o comportamento da substância em células isoladas é diferente do observado em organismos vivos.

Um dos estudos mais recentes, que foi publicado no dia 4 de março de 2021 sobre o efeito de tal medicação foi o “Effect of Ivermectin on Time to Resolution of Symptoms Among Adults With Mild COVID-19” . Foi realizado um estudo randomizado duplo-cego para avaliar alguma eficácia que a ivermectina pudesse exercer sobre pacientes adultos confirmados com coronavírus, sendo que não houve uma prova significante de qualquer resolução sintomática ou melhora do grupo que utilizou a ivermectina, e o grupo que recebeu placebo.

Com isso, tanto a OMS quanto a OPAS (Organização Panamericana de Saúde) desaconselham o uso de ivermectina e de qualquer outro fármaco que não tem eficácia e segurança avaliada em estudo científico.


Cabe ressaltar que diversos estudos ainda estão sendo feitos tanto com outros medicamentos, quanto com alguns dos citados anteriormente e é importante estarmos atentos, acompanhando os avanços da ciência na descoberta de utilizações terapêuticas cabíveis e confiáveis. O que se faz necessário reforçar é que o uso de medicação para Covid-19 ou outra doença deve ser pautado na existência de benefícios e segurança, embasado em estudos clínicos, de preferência que sejam ensaios randomizados e duplo-cegos, para assim ser recomendado de maneira segura o uso de medicações.


REFERÊNCIAS

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2777389

https://www.medicina.ufmg.br/entenda-os-resultados-do-maior-estudo-ja-feito-com-cloroquina-e-hidroxicloroquina/

http://www.capcs.uerj.br/tipos-de-estudos-epidemiologicos/

https://pebmed.com.br/uso-da-azitromicina-em-covid-19-sim-ou-nao/

https://infectologia.org.br/wp-content/uploads/2020/12/atualizacoes-e-recomendacoes-covid-19.pdf

https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/06/1099475/rs_rapida_hidroxicloroquina_covid19_atualizacao_21_05_20.pdf

https://www.ufrgs.br/farmacia/?noticia=cecol-far-a-ivermectina-e-eficaz-no-tratamento-do-novo-coronavirus

https://sbi.org.br/2020/05/18/parecer-da-sociedade-brasileira-de-imunologia-sobre-a-utilizacao-da-cloroquina-hidroxicloroquina-para-o-tratamento-da-covid-19/



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